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EMBRAPA denuncia contágio de salmonella em criatórios de peixes do Centro-Oeste

EMBRAPA denuncia contágio de salmonella em criatórios  de peixes do Centro-Oeste
[foto] - Tambaqui é uma das espécies produzidas nos açudes do Mato Grosso. Há preocupação e muitos cuidados. Foto Aliny Melo.

24-03-2026 11:26:16
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Estudo realizado em viveiros de peixes nativos no Centro-Oeste brasileiro revelou a presença da bactéria Salmonella spp. em ambientes de produção aquícola da região. Os monitoramentos microbiológicos detectaram o patógeno em 88% das propriedades avaliadas e em 31,5% das amostras coletadas em Mato Grosso, principal polo produtor dessas espécies no País. Os dados alertam para a necessidade de reforçar a vigilância e a biossegurança nos ambientes de criação.

 


  •  presença do patógeno foi detectada em 88% das propriedades avaliadas e em 31,5% das amostras coletadas em Mato Grosso, principal polo produtor de espécies nativas no País.
  • Cientistas da Embrapa e da UFMT ressaltam a necessidade de reforçar a biossegurança nos ambientes de criação para garantir a qualidade do pescado e a competitividade da aquicultura.
  • O estudo aponta que nenhuma das cepas avaliadas apresentou sorotipos da bactéria associados a surtos humanos graves.
  • Além disso, entre o ambiente de criação e o consumo, o peixe passa por processamento industrial e cozimento, o que reduz os riscos de contaminação.
  • O próximo passo é estender essas análises para a piscicultura de outras regiões brasileiras.

 

Estudo realizado em viveiros de peixes nativos no Centro-Oeste brasileiro revelou a presença da bactéria Salmonella spp. em ambientes de produção aquícola da região. Os monitoramentos microbiológicos detectaram o patógeno em 88% das propriedades avaliadas e em 31,5% das amostras coletadas em Mato Grosso, principal polo produtor dessas espécies no País. Os dados alertam para a necessidade de reforçar a vigilância e a biossegurança nos ambientes de criação.

As ações foram coordenadas pela pesquisadora Fabíola Fogaça, da Embrapa Agroindústria de Alimentos (RJ), e contaram com a participação dos professores da Universidade Federal do Mato Grosso (UFMT) Eduardo Figueiredo e Luciana Savay-da-Silva.

Fogaça explica que quando os pontos críticos de contaminação são detectados precocemente, é possível adotar medidas preventivas que reduzem os riscos e aumentam a segurança do alimento e a sustentabilidade da produção. 

A pesquisa integra uma série de estudos conduzidos por cientistas da Embrapa, universidades e instituições parceiras para compreender os riscos microbiológicos associados à produção de peixes cultivados e orientar medidas de prevenção que garantam um pescado seguro e a competitividade do setor aquícola.

Estudo avaliou pisciculturas em diferentes biomas

O trabalho foi conduzido em viveiros localizados nos biomas Pantanal e Cerrado e abrangeu 184 amostras provenientes de peixes, água dos viveiros, sedimentos, ração e fezes de animais silvestres e domésticos presentes nas áreas de cultivo.

As análises microbiológicas seguiram protocolos internacionais e foram confirmadas por testes moleculares, permitindo identificar a ocorrência da bactéria, os sorotipos circulantes e os perfis de sensibilidade a antimicrobianos. Os resultados indicaram a presença de dez sorotipos diferentes, com predominância dos intitulados Saintpaul e Newport, além de níveis moderados de resistência a alguns antibióticos, embora sem detecção de cepas multirresistentes.

Além disso, a análise estatística indicou que as vísceras dos peixes apresentaram as maiores taxas de detecção, e que a ocorrência do patógeno foi mais elevada no período seco, sugerindo influência de fatores ambientais e de manejo na dinâmica da contaminação. Esses resultados permitiram identificar pontos críticos ao longo da fase de produção e fornecer subsídios para o desenvolvimento de protocolos de biossegurança voltados à piscicultura brasileira.

Outro estudo avaliou 55 cepas de Salmonella, isoladas da tambatinga (híbrido de tambaqui) cultivada, e analisou a sua suscetibilidade a antibióticos de uso clínico. Nenhuma das cepas apresentou sorotipos clássicos associados a surtos humanos graves (como Typhi, Enteritidis ou  Typhimurium), e todas foram sensíveis aos antibióticos testados, indicando baixo risco de resistência nas condições avaliadas.

A pesquisadora ressalta que o estudo foi restrito à área de produção e não a toda a cadeia produtiva. “Isso não significa que o produto final necessariamente estará contaminado, pois os controles sanitários, o processamento industrial e o cozimento adequado podem reduzir ou eliminar o risco”, complementa.

Na prática, a contaminação microbiológica do pescado pode ocorrer ainda na fase de produção, nos viveiros, podendo ser significativamente reduzida na indústria. A segurança final do alimento depende também do armazenamento adequado e do preparo correto pelo consumidor, etapas fundamentais para prevenir a contaminação alimentar.

Os fatores que contribuem para a contaminação podem ser inúmeros. Mas a professora da UFMT pontua que o fato dos viveiros serem de fácil acesso para pássaros, animais silvestres (jacarés, capivaras, entre outros), animais de criação (aves, suínos, caprinos, bovinos) e também animais domésticos (cachorro, gatos) propicia o contágio do solo e da água dos tanques de criação, tornando a contaminação dos peixes praticamente inevitável.

Outro ponto a ser levado em consideração é o atual fluxo de processamento desses peixes nos frigoríficos, onde a primeira etapa é a lavagem com água hiperclorada, seguida pela retirada das vísceras e guelras. “Estudos em laboratório e também em escala piloto já demonstraram que seria mais eficiente invertermos essas etapas, sendo interessante primeiro a retirada das vísceras e guelras, ainda em uma área suja, e depois a lavagem hiperclorada”, esclarece Savay-da-Silva.

Fotos acima: Yuri Porto

 

Como evitar contaminação ao consumir pescado

Mesmo que o pescado tenha sido exposto a microrganismos durante a produção, cuidados simples na cozinha reduzem o risco de contaminação alimentar praticamente a zero:

 

Armazenamento

  • Mantenha o pescado refrigerado (até 4 °C) ou congelado.
  • Evite deixar o produto fora da geladeira por longos períodos.

Evite contaminação cruzada

  • Separe peixe cru de alimentos prontos para consumo.
  • Utilize facas, tábuas e utensílios diferentes para alimentos crus e cozidos.
  • Lave bem as mãos, utensílios e superfícies após manipular o pescado cru.

Cozimento seguro

  • Cozinhe completamente o pescado (temperatura interna acima de 70 °C).
  • Evite consumir peixe cru ou mal cozido sem um selo de inspeção sanitária.

Higiene na cozinha

  • Descarte líquidos da embalagem e higienize a pia após o preparo.
  • Prefira sempre produtos de origem inspecionada.

Foto: Freepik


Continuidade das pesquisas e abordagem Saúde Única

Os pesquisadores destacam que a presença de diferentes sorotipos com relevância epidemiológica reforça a necessidade de programas integrados de vigilância baseados no conceito de Saúde Única, que considera a interdependência entre saúde animal, humana e ambiental.

Os próximos passos incluem ampliar o monitoramento para outras regiões produtoras, investigar fatores de risco específicos associados aos sistemas produtivos e desenvolver protocolos de boas práticas que possam ser adotados diretamente pelos viveiros. “Nosso objetivo é transformar os resultados científicos em orientações práticas para o setor produtivo, contribuindo para alimentos mais seguros e para a competitividade da aquicultura brasileira”, enfatiza Fogaça.

 

Piscicultura brasileira em números

Produção nacional

  • O Brasil produziu cerca de 968,7 mil toneladas de peixes de cultivo em 2024, crescimento de aproximadamente 9% em relação ao ano anterior.

Principais espécies cultivadas

  • Tilápia: cerca de 662 mil toneladas, representando aproximadamente 68% da produção nacional.
  • As espécies nativas tambaqui (foto à direita), tambatinga, pacu e pirarucu formam o segundo maior grupo produtivo do País.

Principais polos produtores

  • Os Estados Paraná, São Paulo, Minas Gerais, Mato Grosso do Sul, Pernambuco e Maranhão concentram 80% da produção.
  • Além desses, há polos importantes de peixes nativos em estados da Amazônia e do Centro-Oeste.

Consumo interno

  • O consumo nacional de peixes de cultivo é estimado em cerca de 4,35 kg por habitante ao ano, com tendência de crescimento contínuo.
  • Considerando todos os pescados (captura e cultivo), o consumo médio brasileiro gira em torno de 10 kg por pessoa ao ano, ainda abaixo da média mundial.

(Dados da Associação Brasileira da Piscicultura – Peixe BR).

 

 

Fonte: EMBRAPA, Assessoria de Comunicação, Ana Lucia Ferreira
 

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