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Busca por energias renováveis deve ser enfrentada agora

 

Busca por energias renováveis deve ser enfrentada agora
07-05-2022 21:35:31 (109 acessos)
Eliminar progressivamente o carvão e outros combustíveis fósseis e acelerar a utilização de energia renovável, são as soluções de enfrentamento da crise energética que está presente e agravada pela guerra na Ucrânia. Pensamento de Mark Radka, diretor do Setor de Energia e Clima do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA), é o caminho que todos desejam, mas difícil de executar. Apesar do alto custo, recomenda o especialista que o desafio seja enfrentado.

 

Entende Radka que "seria um desastre" e "falsa economia" continuar investindo em exploração de combustíveis fósseis e que a "descarbonização do setor energético é uma tendência definitiva." Deixa a ideia de que produzir mais combustíveis fósseis pode ser uma receita para o desastre.


Um relatório recém-publicado pelo Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC) revela que os projetos já existentes envolvendo uso de combustíveis fósseis e novos previstos, poderão levar o mundo para além do limite de 1,5°C, estabelecido no Acordo de Paris.


O uso de estoques estratégicos e reservas adicionais poderia ajudar a amenizar a crise energética a curto prazo. Mas especialistas dizem que os países devem promover mudanças transformadoras, eliminando progressivamente o carvão e outros combustíveis fósseis e acelerando a utilização de energia renovável.


Ficou surpreso que estamos observando um recuo das empresas de energia e das produtoras de petróleo em relação à redução da produção de combustíveis fósseis? 


Mark Radka (MR):


Não é surpreendente, mas é importante fazer uma distinção entre elas, porque nem as empresas, nem os países, possuem um caráter monolítico. Haverá oportunismo, e seria surpreendente se não houvesse. Mas aquelas empresas mais conscientes estão comprometidas com a transição energética, e eu acredito que permanecerão nesse caminho, mesmo que haja flutuações de curto prazo.
Leva tempo até que o dinheiro investido em novos setores de petróleo ou gasolina produza hidrocarbonetos, então esses são investimentos de longo prazo. Não é algo que ocorre da noite para o dia; eles exigem muito dinheiro, muita engenharia e muita infraestrutura para serem projetados e construídos. As empresas não tomam esse tipo de decisões com base na política do momento.

 

Há uma diminuição no desejo pela ação climática quando atinge o bolso da população?  
 

Mark Radka (MR):

 
Essa é uma falsa narrativa. As energias renováveis hoje alimentam o setor energético, enquanto o uso do carvão na produção de eletricidade diminuiu. Há um aumento bem-vindo na produção e aceitação de veículos elétricos. Embora este mercado ainda seja pequeno, está crescendo rapidamente.

 
Há uma distinção entre petróleo, gasolina e energias renováveis. Há cada vez mais convergência no sistema energético. Mas não ocorreu ao ponto de se poder dizer que "são as políticas pró-clima de energia renovável que são responsáveis pelos altos preços da gasolina". Isso não é verdade.

 

Algumas nações produtoras de petróleo afirmam que, sem a segurança energética, os países não terão meios para enfrentar a mudança climática — o que você pensa disso? 
 

Mark Radka (MR):

A premissa de que, se você se afastar dos combustíveis fósseis muito rapidamente, você reduzirá os meios econômicos para combater a mudança climática tem uma lógica inusitada. Os custos da transição energética não serão pequenos. Mas os custos da inércia excedem em muito os custos da ação. Precisamos de energia, mas também de um clima saudável para que o planeta funcione: precisamos de uma transição energética que seja compatível com o clima.
A tecnologia necessária existe — ainda não alcançou todos os setores — mas não devemos usar isso como uma desculpa para não a promover em outras áreas. Essa transição já está em andamento. Precisamos apenas acelerá-la, o que definitivamente pode ser feito. Eu ficaria surpreso se qualquer governo produtor de hidrocarbonetos afirmasse que deveria parar de produzir hidrocarbonetos, mas penso que as forças de mercado definirão que esses produtores estão em um mercado decrescente.   

 

Energias renováveis são naturalmente mais estáveis. geopoliticamente, que os combustíveis fósseis?
 

Mark Radka (MR):

É claramente muito mais fácil para alguns países serem autossuficientes [quando se trata de energias renováveis] do que para outros. Se você estiver em um local muito ensolarado, o custo da energia solar é atrativo, enquanto outros países podem ter recursos eólicos melhores. A grande maioria dos países tem algumas boas fontes de energia renovável. Se o vento estiver soprando para algum lugar ou se o céu estiver nublado, é possível exportar a energia. Logicamente, deve-se compartilhar os recursos, permitindo um equilíbrio do abastecimento.
Esse tipo de compartilhamento de energia é possível nos países nórdicos porque suas redes elétricas estão em grande parte interligadas. Há também uma linha de alta tensão prevista entre a Escócia e a Noruega que permitirá o comércio de energia eólica escocesa e energia hidrelétrica norueguesa. Este tipo de projeto é bom, pois reduz os custos gerais e aumenta a segurança. O mundo está ficando cada vez mais elétrico — mas a eletricidade não é como o petróleo; não se pode armazená-la em grandes quantidades, portanto, é importante haver mais interconexões.

 

Tendo em conta alertas preocupantes do último relatório do IPCC, estamos correndo o risco de retroceder? 
 

Mark Radka (MR):

Há impulso suficiente para continuar avançando quando se trata de descarbonização, mas pode haver reversões a curto prazo. Eu uso a analogia da temperatura na primavera. Pode haver algumas reviravoltas, mas em última análise, você sabe que a temperatura só está indo em um sentido, e será em média mais quente em julho do que em abril, pelo menos no hemisfério norte.

 

Quais são as possibilidades para maximizar a eficiência energética e assim reduzir o consumo de energia para diminuir a dependência das importações de combustíveis fósseis? 
 

Mark Radka (MR): 

A maior frustração das pessoas que se preocupam com a energia e a mudança climática é o enorme potencial inexplorado para reduzir as necessidades energéticas por meio da eficiência energética. Metade das reduções de emissões a curto prazo no setor energético pode ser alcançada por meio da eficiência energética, por exemplo, utilizando aparelhos, iluminação e motores mais eficientes.
Todos eles estão disponíveis, mas não são adotados de forma ampla o suficiente. Em grande parte, são as políticas públicas que impulsionam mais eficiência. Por exemplo, na União Europeia, você não pode comprar hoje uma geladeira que era considerada a melhor do mercado em 1990. Portanto, essas tecnologias têm avançado, impulsionadas por regulamentações que estimulam a inovação. As pessoas pagam um pouco mais por um aparelho melhor, mas economizam dinheiro em suas contas de energia, muitas vezes o suficiente para pagar o aumento do custo rapidamente.

 

O que diria àqueles que buscam expandir a produção de combustíveis fósseis?
 

Mark Radka (MR):

É preciso ressaltar que essa seria uma falsa economia. Essa situação poderia levar a investimentos que terão de ser retirados cedo, já que a descarbonização no setor energético é uma tendência definitiva. Precisamos de argumentos com fatos para combater a ideia de que o clima não é mais uma prioridade. Não precisamos entrar em pânico, mas também não devemos ser comodistas.

 

Fonte: ONU - PNUMA
 

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